Voltar para publicações
Jun 30, 2026
7 min de leitura

Typst: falei que aquelas 100 horas em LaTeX logo iam pro beleléu

Abandonei o LaTeX pelo Typst, e o que eu achava que era bom agora está bem melhor.

Não tem nem duas semanas que eu publiquei um texto explicando como havia abolido o Word e migrado minhas petições para o LaTeX. Falei de automações, compilação atrás da minha VPN, como gastei 100 horas da minha vida para economizar 5 minutos por peça etc. O gênio da automação (que só usou IA pra fazer quase tudo, kkkk).

Aí, é claro, a internet fez o que faz de melhor. Me chamaram a atenção pra existência de coisa mais atual: o Typst.

Eu não conhecia. Fui pesquisar. E, pasmem, realmente eu tinha desperdiçado 100 horas. Bom, não ao pé da letra, porque a lógica por trás do funcionando do sistema de petições em LaTeX eu consegui aproveitar, mas migrei tudo para a sintaxe do Typst.

E, sendo sincero, o negócio ficou bem melhor.

O que é o Typst?

Para quem (assim como eu até uns 10 dias atrás) não faz ideia do que se trata, o Typst é um novo sistema de criação de documentos, escrito em Rust. Ele nasceu com a missão de ser o assassino/sucessor do LaTeX.

O LaTeX foi criado em 1983, bem antes de eu nascer. Curiosamente foi no mesmo ano que lançaram aquele Motorola Tijolão no mercado americano. Os tempos eram outros. A sintaxe dele é herança dessa época em que computadores ocupavam salas inteiras.

Escrever \begin{document} e lidar com pacotes que conflitam entre si só para mudar a margem de uma folha não é das melhores experiências. Pra falar os clichês que a gente escuta em sérias, o LaTeX não envelheceu igual um bom vinho. Envelheceu igual leite.

O Typst, por sua vez, é justamente o que o LaTeX seria se tivesse sido inventado hoje. A capacidade que o LaTeX tem na tipografia, o Typst apresenta junto com uma linguagem muito mais amigável. Lógica de programação em Typst se assemelha ao Python ou ao JavaScript.

Em vez de:

\textbf{Texto em negrito} e \textit{itálico}.

No Typst você simplesmente escreve:

*Texto em negrito* e _itálico_.

Sim, é quase Markdown puro, só que com muito mais liberdade de programação para criar funções, variáveis e layouts complexos.

Vantagens e Desvantagens

Depois de reconstruir meu fluxo de trabalho todo nessa nova plataforma, aqui está o que achei do Typst em comparação ao dinossauro do LaTeX:

As Vantagens

  • A Compilação Instantânea: No LaTeX, quando eu digitava uma linha, o compilador demorava 9 ou 10 segundos para gerar o PDF. Parece pouco, mas no fluxo de trabalho isso quebra o ritmo. Se você quer ver como uma mudança vai ficar, tem que esperar uns instantes. No Typst, a compilação acontece em milissegundos. Você digita uma letra e o PDF atualiza na hora, em tempo real. A experiência do usuário é infinitamente mais fluida.

  • Sintaxe Amigável: O código é legível. Não tem aquela poluição visual de contra-barras (\) para absolutamente tudo. As mensagens de erro realmente te dizem onde você errou (em vez das mensagens enigmáticas do LaTeX - “Pretend that you’re Hercule Poirot: Examine all clues” é uma mensagem de erro real, kkkkk, basicamente “sei lá, boa sorte aí campeão”).

  • Linguagem de Script Moderna: Como eu disse, o Typst tem uma linguagem de programação interna muito parecida com Python/JavaScript. Fazer cálculos de plural, gênero e concordância (que é o cerne do meu uso jurídico) é muito mais natural do que lidar com a sintaxe bizarra do expl3 no LaTeX. Pra você ter noção, isso aqui é um trecho do meu código em LaTeX:

\cs_new_protected:Npn  \legalcore_calc_genero:n #1
	{
		\int_compare:nNnTF { \value{count#1} } > { 1 }
			{
				\tl_set:Nn  \l_tmpa_tl { fp }
				\int_step_inline:nn { \value{count#1} }
					{
						\tl_set:Nx  \l_tmpb_tl { \use:c { \str_lowercase:n{#1}Gen##1 } }
						\str_if_eq:VnT  \l_tmpb_tl { m } { \tl_set:Nn  \l_tmpa_tl { p } }
						\str_if_eq:VnT  \l_tmpb_tl { p } { \tl_set:Nn  \l_tmpa_tl { p } }
					}
				\tl_set_eq:NN  \genero  \l_tmpa_tl
			}
			{
				\tl_set:Nx  \genero { \use:c { \str_lowercase:n{#1}Gen1 } }
			}
}

As Desvantagens

  • Ecossistema Menor: Como é um projeto novo, você não vai encontrar a quantidade absurda de informações/templates/ideias que o LaTeX acumulou em 40 anos.

  • Sistema em Desenvolvimento: Também por ser um projeto novo, muitas coisas ainda não foram implementadas. Por sorte eu não encontrei nenhuma barreira nesse sentido no meu uso aqui, mas há relatos de quem ainda não consiga migrar do LaTeX porque o Typst não consegue suprir determinadas necessidades.

  • Falta de Padrão em Faculdades/Revistas: Pra quem é do meio acadêmico, muitas revistas e universidades ainda exigem estritamente o formato .tex. Eu só me interesso no .pdfque é o resultado final, então pra mim é indiferente. Se o arquivo não for muito complexo, talvez o Pandoc consiga converter também!

Como foi a migração

Quando decidi que queria testar o Typst, a primeira coisa que eu fiz foi seguir o manual que está nas documentações deles. Vi que o negócio era prático. O próximo passo, obviamente, foi pedir ajuda pra IA. Eu usei o Claude Code pra praticamente tudo.

A conversão não foi perfeita, e no fim precisei fazer alguns ajustes manuais, mas o resultado ficou praticamente idêntico no final, com a diferença de que agora o negócio é bem mais fácil de manter.

Em uma única tarde, coloquei tudo pra rodar em Typst. O arquivo principal que uso para escrever as petições agora é incrivelmente limpo. A estrutura da qualificação das partes, o cabeçalho timbrado e as tabelas de débito ficaram ainda mais fáceis de preencher.

O Próximo Passo: Interface Web Própria

No meu post sobre o [home-server]https://www.isoliveira.adv.br/blog/homeserver), eu comentei que um dos meus planos de médio prazo era criar um sistema próprio, amigável, para gerenciar prazos e gerar petições sem assustar eventuais colaboradores do escritório com telas cheias de código.

Com o LaTeX, renderizar o PDF na tela da web em tempo real para o usuário final seria um baita gargalo por conta da demora na compilação. Com o Typst, isso virou realidade. Como ele compila instantaneamente, dá para construir uma interface web leve onde o usuário preenche os campos do processo e o PDF vai se montando na tela ao lado na velocidade da digitação.

E o melhor: tudo isso vai rodar de forma 100% local no meu servidor, escondido com segurança atrás da minha VPN,

Meus clientes continuam com privacidade absoluta (já que nenhum dado sensível sai da minha máquina direto pras IAs ou servidores de terceiros), mas agora com uma usabilidade digna de software comercial moderno.

Mas suponho que esse sonho está a alguns meses de distância, porque é um projeto bem mais ambicioso do que tudo que já fiz até agora. Aceito sugestões de projetos open-source que dêem uma base de onde eu possa partir!

Conclusão: Valeu a pena?

Valeu.

Se você já usa o LaTeX e tem um sistema robusto rodando, talvez a preguiça te segure um pouco. Mas se você está pensando em começar a automatizar seus documentos agora, não perca tempo com o LaTeX. Vá direto para o Typst.

A curva de aprendizado é muito mais suave, a ferramenta é moderna e você não vai precisar gastar as mesmas 100 horas que eu gastei batendo cabeça para conseguir um resultado impecável.